quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Stella Maris (Marshall Neilan, 1918)


Abrindo com uma confissão algo vergonhosa para qualquer cinéfilo que se preze, admito que antes de Stella Maris pouco sabia de Mary Pickford para além de que aparentemente tinha por hábito comer rosas. Hábito estranho, sem dúvida, e que me deixou à partida confiante de que assistir a um filme de uma come-flores qualquer não iria deitar por terra a minha convicção de que Lillian Gish foi a derradeira deusa do cinema mudo. Isso efectivamente não aconteceu, não porque Mary tenha defraudado as espectativas, mas porque somente um filme nunca chegará para formar uma opinião consistente sobre quem quer que seja. Ainda assim, o que Mary faz em Stella Maris - onde desempenha os dois papéis principais - deixa o prenúncio de que estará para vir uma feroz batalha a dois, em que aquela que foi durante uma década a actriz mais popular do planeta defronta Lillian Gish por um lugar no cocuruto da minha preferência. Juntem-se a essa batalha a ilustre Gloria Swanson, a belíssima Betty Compson e a hilariante Ossi Oswalda e, numa altura em que se trocam acusações sobre guerras necrofílicas, poderei ter em mãos a minha Grande Guerra Necrofílica privada. I'm a creep like that.

No filme, Mary Pickford interpreta Stella Maris, a personagem que dá nome ao título, e Unity Blake, a personagem que deveria dar nome ao título. Digo que Unity deveria ter a honra de baptismo do filme porque é  (tal como o louco Wamba de Ivanhoe que me empresta o nome com que assino este blog) a verdadeira heroína do enredo. 


Stella é uma jovem mulher, órfã e paralítica desde tenra idade por culpa de uma rara doença nunca especificada. Apesar desses inconvenientes, Stella tem uma vida que se pode apelidar de agradável. Vive no quarto de uma mansão com os seus tios que, confrontados com a tarefa de criar uma criança eternamente presa à sua cama, decidiram que o melhor seria protegê-la de todas as injustiças do mundo real e contar-lhe apenas os aspectos positivos da humanidade. O mundo em que Stella vive é então um lugar idílico, onde todos são felizes, têm tudo o que querem ter, e a morte é algo que não existe. A primeira vez que Stella aparece no ecrã vemo-la sorridente, envolta numa aura luminosa, qual personagem abençoada.

A personagem de Unity Blake representa o extremo oposto do espectro. Tal como Stella, Unity é órfã. Mas ao contrário da sua homóloga, Unity não teve ninguém para a acolher e foi enviada para um orfanato onde os maus tratos e a malnutrição a tornaram numa mulher frágil e feia. A primeira vez que vimos Unity é através de os contornos de uma cruz, um presságio do seu papel de mártir nesta história.

Unity Blake envolta nos contornos de uma cruz
Stella Maris envolta numa aura luminosa
Não menos relevantes são as personagens de John e Louise Risca. John é um amigo de Stella. As suas visitas frequentes à mansão tornaram essa amizade em amor não consumado. Nenhum dos dois parece ter a coragem para revelar a sua paixão. Stella porque considera que a circunstância em que se encontra iria condicionar John a uma vida que não merece, John porque tem um segredo que nunca mencionou a Stella: é casado com Louise. A vida de Unity cruza-se com a dos restantes protagonistas quando John decide ir ao orfanato procurar uma empregada doméstica para a sua casa. Contrata Unity, que nem assim escapa ao azar que a acompanhou toda a vida e é severamente espancada por Louise, que acaba na prisão. A partir deste momento - e com Louise fora de acção -, acompanhamos o esforço de Stella e Unity (esta última entretanto também se apaixonou por John) para conquistarem o coração de John, e os caminhos inversos que percorrem nas suas novas vidas. Stella aceita ser submetida a uma operação experimental e recupera a capacidade de andar, mas a felicidade inicial é superada pela descoberta que afinal o mundo não é o lugar perfeito que julgava ser quando encontra vários mendigos à porta da mansão. Já Unity é adoptada por John e descobre que a vida afinal não é só amargura. Decide que a melhor forma de cair nas boas graças de John é estudar para se tornar no tipo de mulher que lhe apraz. E assim se esforçam as duas para conquistar John, até ao dia em que Louise é libertada e volta a casa para aterrorizar a vida do seu marido. Surge então a frase que leva Unity tomar medidas drásticas...



Esta sinopse permite desde logo compreender que Stella Maris é um filme inovador para o seu tempo tanto tecnologicamente como a nível da narrativa. Se ainda hoje, nos dias do 3D e do CGI excessivo, se gera algum espanto quando um actor partilha o ecrã consigo mesmo, o que dizer de um filme que o fez praticamente com a mesma eficácia numa época em que o cinema era ainda uma invenção relativamente recente? Se é verdade que os primeiros anos do cinema serviram primordialmente para explorar a sua capacidade de iludir a audiência, e que o truque de multiplicar pessoas ou mesmo partes do corpo não era necessariamente novo, verdade também é que a grande maioria dessas ilusões não se estendiam por mais que alguns minutos. Fazer um grande investimento e realizar uma longa-metragem sustentada na ideia de que Mary Pickford interpretaria os dois papéis fulcrais e que, chegado o momento de Stella e Unity interagirem, a edição com recurso ao matte e à dupla exposição chegariam para tornar as cenas credíveis, é sem dúvida uma acto de coragem. 

A coragem estende-se à própria Mary Pickford, que nos anos anteriores tinha alcançado uma reputação mundial baseada na sua beleza, e decidiu neste filme arriscar alienar o seu público-alvo, contra a vontade do estúdio, transformando-se completamente para interpretar Unity, uma personagem corcunda e com mono-sobrancelha  A aposta foi bem sucedida e Mary passou a ser reconhecida não só pela cara bonita mas também pelo talento.

Não menos audaz é uma narrativa em que John - a única figura masculina de relevo no filme – é uma personagem praticamente inútil. A sua quase exclusiva função na narrativa é ser o interesse amoroso de Stella e Unity. Ocorre então uma inversão dos papéis tipicamente masculinos e femininos, e John não é neste filme mais do que a donzela atormentada, desesperadamente preso nas garras de Louise, a cruel esposa. Do lado oposto estão Stella e Unity, os cavalheiros que cortejam a donzela e se vêem obrigadas a agir para a libertar do seu malfeitor. Esse feminismo e o carácter subversivo do filme estão desde logo patentes no nome Stella Maris e explicam provavelmente a razão pela qual o Unity não teve honras de título. Se o simbolismo do nome Unity se torna evidente no decorrer da narrativa pela função que esta terá na relação de John com Stella, já o nome Stella Maris - ensinou-me outra mulher - carrega consigo uma carga simbólica mais pesada. Literalmente estrela-do-mar em latim, Stella Maris é também o nome dado à Estrela Polar e um dos cognomes da Virgem Maria, ambos símbolos de esperança, salvação, protecção e orientação, a primeira para navegantes, a segunda para o povo cristão. Não deverá então ser disparatado olhar para a personagem de Stella Maris como a referência e ponto de orientação que John deverá seguir para se salvar de Louise, e para a sua inocência e a mágoa com que esta vislumbra o sofrimento do mundo quando recupera a capacidade de movimento como prova de pureza, símbolo de esperança e divindade.

No entanto, e como seria de esperar de uma produção de Hollywood seja de que século for, todos esses simbolismos, efeitos especiais e melodrama não se sobrepõem ao objectivo basilar do cinema norte-americano: entreter. Neilan proporciona um equilíbrio capaz ao filme intercalando o sentimentalismo melodramático com pequenos momentos de humor e descontracção  dos quais o pequeno romance paralelo à narrativa entre dois cães é o mais delicioso. Numa obra em que brilhava Mary Pickford era difícil o realizador não ser ofuscado, mas neste filme são também os seus pequenos detalhes que ajudam a elevar o todo a algo mais que uma montra para a actriz. O travelling final, último plano do filme, é sem dúvida um desses detalhes, dando ao desfecho um fulgor que um simples fade-out nunca atingira e catapultando-o para  a qualidade de um dos melhores filmes da era do cinema mudo.

Stella Maris está em domínio público e encontra-se integralmente no YouTube. Para quem for como eu e não conseguir ver um filme mudo sem a companhia de uma banda sonora, deixo aqui uma sugestão que me caiu bem depois de uma tentativa falhada de iniciar o filme ao som de Zbigniew Preisner, que lhe fornecia um tom demasiado fúnebre. Aqui fica.

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