quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
Irma la Douce (Billy Wilder, 1963)
Os anos 60 são provavelmente os mais desconformes do cinema de Hollywood. A queda dos grandes estúdios e do subsequente sistema no final dos anos 50, assim como o surgimento de uma nova vaga de realizadores mais abertos ao experimentalismo e ao realismo (que atingiria o pico nos gloriosos anos 70), levaram a que estes fossem anos em que a formalidade e o lustro dos filmes da Era Dourada coabitassem no mercado com a emancipação do novo movimento. Billy Wilder foi um dos que não quis abandonar os seus velhos métodos de trabalho, sacando do desfibrilador a cada novo filme e reanimando o modelo larger than life pelos anos 60 e 70 dentro. Em algumas ocasiões conseguiu que esse esforço fosse bem recebido, em outras foi encarado como um fracasso de alguém que estava notoriamente com dificuldade em adaptar-se aos novos tempos. Irma La Douce é um desses fracassos, não de bilheteira mas da crítica, que tem porém aumentado gradualmente a sua base de defensores ao longo do tempo.
Nestor Patou (Jack Lemmon) é um polícia que acaba de ser dispensado das suas funções por inocentemente pensar que a lei foi feita para ser cumprida, numa esquadra onde todos são corruptos. Sem prospectos para o futuro, acaba por se apaixonar por Irma (Shirley MacLaine), uma prostituta que o adopta como “gerente de negócios” - vulgo “chulo” - contra a sua vontade. Com o passar do tempo Nestor apercebe-se que não consegue partilhar Irma com outros homens sem ficar com a consciência pesada, concebendo um plano para a ter só para si. Criando um alter-ego milionário, Lord X, pode dar dinheiro suficiente a Irma para que ela não precise de mais clientes. Uma vez que ela logo de seguida irá devolver o dinheiro a Nestor, conseguirá viver o resto da sua vida em exclusividade com Irma, num ciclo sem inconvenientes nem prejuízos. Mas o plano acaba por dar para o torto…
Desde logo é estranho que a adaptação de um musical Parisiense tenha sido entregue a Billy Wilder, que se sentia inseguro da sua capacidade de realizar um musical e por isso mesmo decidiu que o filme seria apenas uma comédia. Ainda assim tem que se dar o benefício da dúvida, estamos a falar de um realizador que pela altura que este filme começou a ser rodado contava no currículo 6 Oscars e 14 nomeações. Sendo a comédia screwball uma das especialidades dele não era um favor que lhe faziam ao deixarem-no escrever e realizar o filme. Ainda assim não deixa de ser estranha a abordagem ao filme, todo filmado em estúdio com um cenário típico dos musicais já ultrapassados à la Vincente Minnelli, que Scorsese homenageou em New York, New York. Escusado será dizer que nada no dito cenário se parece realmente com Paris, mas sim com uma versão idealizada da cidade. O horizonte é notoriamente desenhado numa tela, o technicolor é caracteristicamente carregado, os passeios são excessivamente altos, a sujidade demasiado perfeita e o trânsito é formado sempre pelo mesmo par de automóveis. Tudo isto cria a expectativa de ver, a qualquer momento, uma das personagens irromper num número musical. Mas isso nunca acontece, tornando toda a caracterização algo inadequada.
Não ajuda a que a história seja um pouco misógina. A certa altura tenta esconder essa misoginia quando aborda a ideia de que um homem não pode ser sustentado pela mulher como irracional. Nestor aceita por momentos ser dependente de Irma. Mas no final do filme contradiz-se e tudo volta ao “normal”. Nestor faz de Irma a sua esposa, recupera o seu emprego para ser ele a sustentar o casal. Isto, aliado ao facto de os “gerentes de negócios” nunca serem abordados de forma muito séria apesar da violência a que sujeitam as suas clientes, faz que esta realidade seja talvez demasiado estilizada para ser aceitável (uma vez que credível nunca o seria).
Mas o absurdismo em que o filme está envolto serve a comédia de uma forma que só Billy Wilder conseguia. Nunca é tão perspicaz como em Some Like It Hot, tão aveludado como em The Apartment, ou tão vivo como em One, Two, Three. Mas ganha no factor nonsense aos três. Lord X é o paradigma disso mesmo e o autor dos melhores momentos do filme. Jack Lemmon transforma-se num britânico com uma fisionomia por si só suficientemente cómica, adiciona-lhe um sotaque britânico com algumas das expressões mais disparatadas que se possam imaginar e transforma Lord X numa sumptuosa caricatura ao nível do Dr. Strangelove de Peter Sellers e das oito personagens de Alec Guinness em Kind Heats and Coronets. Junta-se a ele Moustache, o multifacetado barman que foi um dos soldados resgatados em Dunkirk, advogado de sucesso, médico obstetra e especialista em disfarces e subornos, e temos aqui uma das parelhas mais engenhosas do cinema, que junto com a sensualidade e o talento de uma Shirley MacLaine em meias verdes e decote generoso, dão vida ao filme. O que torna Irma la Douce menos relevante que as outras viagens pela comédia de Billy Wilder é o facto de estes momentos de génio serem demasiado intermitentes para dar consistência a quase duas horas e meia de filme.
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