quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Stella Maris (Marshall Neilan, 1918)


Abrindo com uma confissão algo vergonhosa para qualquer cinéfilo que se preze, admito que antes de Stella Maris pouco sabia de Mary Pickford para além de que aparentemente tinha por hábito comer rosas. Hábito estranho, sem dúvida, e que me deixou à partida confiante de que assistir a um filme de uma come-flores qualquer não iria deitar por terra a minha convicção de que Lillian Gish foi a derradeira deusa do cinema mudo. Isso efectivamente não aconteceu, não porque Mary tenha defraudado as espectativas, mas porque somente um filme nunca chegará para formar uma opinião consistente sobre quem quer que seja. Ainda assim, o que Mary faz em Stella Maris - onde desempenha os dois papéis principais - deixa o prenúncio de que estará para vir uma feroz batalha a dois, em que aquela que foi durante uma década a actriz mais popular do planeta defronta Lillian Gish por um lugar no cocuruto da minha preferência. Juntem-se a essa batalha a ilustre Gloria Swanson, a belíssima Betty Compson e a hilariante Ossi Oswalda e, numa altura em que se trocam acusações sobre guerras necrofílicas, poderei ter em mãos a minha Grande Guerra Necrofílica privada. I'm a creep like that.

No filme, Mary Pickford interpreta Stella Maris, a personagem que dá nome ao título, e Unity Blake, a personagem que deveria dar nome ao título. Digo que Unity deveria ter a honra de baptismo do filme porque é  (tal como o louco Wamba de Ivanhoe que me empresta o nome com que assino este blog) a verdadeira heroína do enredo. 


Stella é uma jovem mulher, órfã e paralítica desde tenra idade por culpa de uma rara doença nunca especificada. Apesar desses inconvenientes, Stella tem uma vida que se pode apelidar de agradável. Vive no quarto de uma mansão com os seus tios que, confrontados com a tarefa de criar uma criança eternamente presa à sua cama, decidiram que o melhor seria protegê-la de todas as injustiças do mundo real e contar-lhe apenas os aspectos positivos da humanidade. O mundo em que Stella vive é então um lugar idílico, onde todos são felizes, têm tudo o que querem ter, e a morte é algo que não existe. A primeira vez que Stella aparece no ecrã vemo-la sorridente, envolta numa aura luminosa, qual personagem abençoada.

A personagem de Unity Blake representa o extremo oposto do espectro. Tal como Stella, Unity é órfã. Mas ao contrário da sua homóloga, Unity não teve ninguém para a acolher e foi enviada para um orfanato onde os maus tratos e a malnutrição a tornaram numa mulher frágil e feia. A primeira vez que vimos Unity é através de os contornos de uma cruz, um presságio do seu papel de mártir nesta história.

Unity Blake envolta nos contornos de uma cruz
Stella Maris envolta numa aura luminosa
Não menos relevantes são as personagens de John e Louise Risca. John é um amigo de Stella. As suas visitas frequentes à mansão tornaram essa amizade em amor não consumado. Nenhum dos dois parece ter a coragem para revelar a sua paixão. Stella porque considera que a circunstância em que se encontra iria condicionar John a uma vida que não merece, John porque tem um segredo que nunca mencionou a Stella: é casado com Louise. A vida de Unity cruza-se com a dos restantes protagonistas quando John decide ir ao orfanato procurar uma empregada doméstica para a sua casa. Contrata Unity, que nem assim escapa ao azar que a acompanhou toda a vida e é severamente espancada por Louise, que acaba na prisão. A partir deste momento - e com Louise fora de acção -, acompanhamos o esforço de Stella e Unity (esta última entretanto também se apaixonou por John) para conquistarem o coração de John, e os caminhos inversos que percorrem nas suas novas vidas. Stella aceita ser submetida a uma operação experimental e recupera a capacidade de andar, mas a felicidade inicial é superada pela descoberta que afinal o mundo não é o lugar perfeito que julgava ser quando encontra vários mendigos à porta da mansão. Já Unity é adoptada por John e descobre que a vida afinal não é só amargura. Decide que a melhor forma de cair nas boas graças de John é estudar para se tornar no tipo de mulher que lhe apraz. E assim se esforçam as duas para conquistar John, até ao dia em que Louise é libertada e volta a casa para aterrorizar a vida do seu marido. Surge então a frase que leva Unity tomar medidas drásticas...



Esta sinopse permite desde logo compreender que Stella Maris é um filme inovador para o seu tempo tanto tecnologicamente como a nível da narrativa. Se ainda hoje, nos dias do 3D e do CGI excessivo, se gera algum espanto quando um actor partilha o ecrã consigo mesmo, o que dizer de um filme que o fez praticamente com a mesma eficácia numa época em que o cinema era ainda uma invenção relativamente recente? Se é verdade que os primeiros anos do cinema serviram primordialmente para explorar a sua capacidade de iludir a audiência, e que o truque de multiplicar pessoas ou mesmo partes do corpo não era necessariamente novo, verdade também é que a grande maioria dessas ilusões não se estendiam por mais que alguns minutos. Fazer um grande investimento e realizar uma longa-metragem sustentada na ideia de que Mary Pickford interpretaria os dois papéis fulcrais e que, chegado o momento de Stella e Unity interagirem, a edição com recurso ao matte e à dupla exposição chegariam para tornar as cenas credíveis, é sem dúvida uma acto de coragem. 

A coragem estende-se à própria Mary Pickford, que nos anos anteriores tinha alcançado uma reputação mundial baseada na sua beleza, e decidiu neste filme arriscar alienar o seu público-alvo, contra a vontade do estúdio, transformando-se completamente para interpretar Unity, uma personagem corcunda e com mono-sobrancelha  A aposta foi bem sucedida e Mary passou a ser reconhecida não só pela cara bonita mas também pelo talento.

Não menos audaz é uma narrativa em que John - a única figura masculina de relevo no filme – é uma personagem praticamente inútil. A sua quase exclusiva função na narrativa é ser o interesse amoroso de Stella e Unity. Ocorre então uma inversão dos papéis tipicamente masculinos e femininos, e John não é neste filme mais do que a donzela atormentada, desesperadamente preso nas garras de Louise, a cruel esposa. Do lado oposto estão Stella e Unity, os cavalheiros que cortejam a donzela e se vêem obrigadas a agir para a libertar do seu malfeitor. Esse feminismo e o carácter subversivo do filme estão desde logo patentes no nome Stella Maris e explicam provavelmente a razão pela qual o Unity não teve honras de título. Se o simbolismo do nome Unity se torna evidente no decorrer da narrativa pela função que esta terá na relação de John com Stella, já o nome Stella Maris - ensinou-me outra mulher - carrega consigo uma carga simbólica mais pesada. Literalmente estrela-do-mar em latim, Stella Maris é também o nome dado à Estrela Polar e um dos cognomes da Virgem Maria, ambos símbolos de esperança, salvação, protecção e orientação, a primeira para navegantes, a segunda para o povo cristão. Não deverá então ser disparatado olhar para a personagem de Stella Maris como a referência e ponto de orientação que John deverá seguir para se salvar de Louise, e para a sua inocência e a mágoa com que esta vislumbra o sofrimento do mundo quando recupera a capacidade de movimento como prova de pureza, símbolo de esperança e divindade.

No entanto, e como seria de esperar de uma produção de Hollywood seja de que século for, todos esses simbolismos, efeitos especiais e melodrama não se sobrepõem ao objectivo basilar do cinema norte-americano: entreter. Neilan proporciona um equilíbrio capaz ao filme intercalando o sentimentalismo melodramático com pequenos momentos de humor e descontracção  dos quais o pequeno romance paralelo à narrativa entre dois cães é o mais delicioso. Numa obra em que brilhava Mary Pickford era difícil o realizador não ser ofuscado, mas neste filme são também os seus pequenos detalhes que ajudam a elevar o todo a algo mais que uma montra para a actriz. O travelling final, último plano do filme, é sem dúvida um desses detalhes, dando ao desfecho um fulgor que um simples fade-out nunca atingira e catapultando-o para  a qualidade de um dos melhores filmes da era do cinema mudo.

Stella Maris está em domínio público e encontra-se integralmente no YouTube. Para quem for como eu e não conseguir ver um filme mudo sem a companhia de uma banda sonora, deixo aqui uma sugestão que me caiu bem depois de uma tentativa falhada de iniciar o filme ao som de Zbigniew Preisner, que lhe fornecia um tom demasiado fúnebre. Aqui fica.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Irma la Douce (Billy Wilder, 1963)


Os anos 60 são provavelmente os mais desconformes do cinema de Hollywood. A queda dos grandes estúdios e do subsequente sistema no final dos anos 50, assim como o surgimento de uma nova vaga de realizadores mais abertos ao experimentalismo e ao realismo (que atingiria o pico nos gloriosos anos 70), levaram a que estes fossem anos em que a formalidade e o lustro dos filmes da Era Dourada coabitassem no mercado com a emancipação do novo movimento. Billy Wilder foi um dos que não quis abandonar os seus velhos métodos de trabalho, sacando do desfibrilador a cada novo filme e reanimando o modelo larger than life pelos anos 60 e 70 dentro. Em algumas ocasiões conseguiu que esse esforço fosse bem recebido, em outras foi encarado como um fracasso de alguém que estava notoriamente com dificuldade em adaptar-se aos novos tempos. Irma La Douce é um desses fracassos, não de bilheteira mas da crítica, que tem porém aumentado gradualmente a sua base de defensores ao longo do tempo.

Nestor Patou (Jack Lemmon) é um polícia que acaba de ser dispensado das suas funções por inocentemente pensar que a lei foi feita para ser cumprida, numa esquadra onde todos são corruptos. Sem prospectos para o futuro, acaba por se apaixonar por Irma (Shirley MacLaine), uma prostituta que o adopta como “gerente de negócios” - vulgo “chulo” - contra a sua vontade. Com o passar do tempo Nestor apercebe-se que não consegue partilhar Irma com outros homens sem ficar com a consciência pesada, concebendo um plano para a ter só para si. Criando um alter-ego milionário, Lord X, pode dar dinheiro suficiente a Irma para que ela não precise de mais clientes. Uma vez que ela logo de seguida irá devolver o dinheiro a Nestor, conseguirá viver o resto da sua vida em exclusividade com Irma, num ciclo sem inconvenientes nem prejuízos. Mas o plano acaba por dar para o torto…


Desde logo é estranho que a adaptação de um musical Parisiense tenha sido entregue a Billy Wilder, que se sentia inseguro da sua capacidade de realizar um musical e por isso mesmo decidiu que o filme seria apenas uma comédia. Ainda assim tem que se dar o benefício da dúvida, estamos a falar de um realizador que pela altura que este filme começou a ser rodado contava no currículo 6 Oscars e 14 nomeações. Sendo a comédia screwball uma das especialidades dele não era um favor que lhe faziam ao deixarem-no escrever e realizar o filme. Ainda assim não deixa de ser estranha a abordagem ao filme, todo filmado em estúdio com um cenário típico dos musicais já ultrapassados à la Vincente Minnelli, que Scorsese homenageou em New York, New York. Escusado será dizer que nada no dito cenário se parece realmente com Paris, mas sim com uma versão idealizada da cidade. O horizonte é notoriamente desenhado numa tela, o technicolor é caracteristicamente carregado, os passeios são excessivamente altos, a sujidade demasiado perfeita e o trânsito é formado sempre pelo mesmo par de automóveis. Tudo isto cria a expectativa de ver, a qualquer momento, uma das personagens irromper num número musical. Mas isso nunca acontece, tornando toda a caracterização algo inadequada.


Não ajuda a que a história seja um pouco misógina. A certa altura tenta esconder essa misoginia quando aborda a ideia de que um homem não pode ser sustentado pela mulher como irracional. Nestor aceita por momentos ser dependente de Irma. Mas no final do filme contradiz-se e tudo volta ao “normal”. Nestor faz de Irma a sua esposa, recupera o seu emprego para ser ele a sustentar o casal. Isto, aliado ao facto de os “gerentes de negócios” nunca serem abordados de forma muito séria apesar da violência a que sujeitam as suas clientes, faz que esta realidade seja talvez demasiado estilizada para ser aceitável (uma vez que credível nunca o seria).


Mas o absurdismo em que o filme está envolto serve a comédia de uma forma que só Billy Wilder conseguia. Nunca é tão perspicaz como em Some Like It Hot, tão aveludado como em The Apartment, ou tão vivo como em One, Two, Three. Mas ganha no factor nonsense aos três. Lord X é o paradigma disso mesmo e o autor dos melhores momentos do filme. Jack Lemmon transforma-se num britânico com uma fisionomia por si só suficientemente cómica, adiciona-lhe um sotaque britânico com algumas das expressões mais disparatadas que se possam imaginar e transforma Lord X numa sumptuosa caricatura ao nível do Dr. Strangelove de Peter Sellers e das oito personagens de Alec Guinness em Kind Heats and Coronets. Junta-se a ele Moustache, o multifacetado barman que foi um dos soldados resgatados em Dunkirk, advogado de sucesso, médico obstetra e especialista em disfarces e subornos, e temos aqui uma das parelhas mais engenhosas do cinema, que junto com a sensualidade e o talento de uma Shirley MacLaine em meias verdes e decote generoso, dão vida ao filme. O que torna Irma la Douce menos relevante que as outras viagens pela comédia de Billy Wilder é o facto de estes momentos de génio serem demasiado intermitentes para dar consistência a quase duas horas e meia de filme.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

O Balanço Cinematográfico de 2012

Quem vive no Interior sabe o quão difícil é encontrar nas cidades pequenas (sem a bênção de uma cinemateca) salas de cinema que apostem em algo mais do que blockbusters. Porque me englobo nesse grupo, seria hipocrisia estar a limitar esta retrospectiva ao ano transacto a filmes que tenham estreado nos nossos cinemas. Sei bem que quatro dos filmes desta lista ainda não estrearam nas “nossas” salas , mas reservo-me ao direito de presumir que se filmes como Tabu, César Deve Morrer, Holy Motors, O Gebo e a Sombra, entre tantos outros, não tiveram direito a uma merecida estreia na pequena cidade onde vivo, muito dificilmente terei a oportunidade de ver Barbara, The Queen of Versailles, L'enfant d'en Haut e Rebelle no grande ecrã neste ano de 2013. E se no caso do filme do mestre Manoel ainda é impossível encontrar uma solução, no caso dos quatro filmes que incluí nesta lista a internet providencia uma dádiva bem-vinda. A experiência nunca será a mesma, mas entre ver mal ou não ver de todo preferirei sempre a primeira. Fica aqui, então, o aviso de que este blogger aceita ser rotulado de pirata, assassino do cinema, ladrão, imbecil, anarquista, terrorista, selvagem ou lixo social. O que não aceita é perder obras-primas por não ter tusto e não viver na metrópole.

Posto isto, aqui ficam os 10:


1. Holy Motors (Leos Carax)Uma viagem louca pelo mundo do cinema e da tecnologia ou por qualquer outro mundo que o espectador ache apropriado. Atrever-me-ia a dizer que é não só o melhor filme do ano mas também um dos melhores dos últimos 10 anos. Um testemunho do poder da imagem e, logicamente, do cinema. É uma experiência em que podemos encontrar várias histórias dentro de aparentemente história nenhuma, ou não encontrar qualquer história ou linha narrativa e compreender o seu fascínio com a mesma intensidade. Uma espécie de filme do-it-yourself que, além do mais, conta ainda com a breve presença de Michel Piccoli, para mim sempre um selo de qualidade, e onde uma versão em acordeão de Let My Baby Ride protagoniza um dos pontos altos do filme. Que mais pedir?


2. Amour (Michael Haneke) - Pouca gente esperaria de Haneke uma história como estas. Enquanto o filme percorria o circuito dos festivais de cinema, o público e a crítica pareciam concordar que o filme exibia uma nova face do realizador, um cinema com mais compaixão ao invés do seu habitual cinismo. A verdade é que Amour não é um filme em que Haneke olhe com mais simpatia para as suas personagens do que fez nos seus anteriores trabalhos. É sim um olhar realista sobre uma fase da vida tão raras vezes retratada no grande ecrã, que difere dessas raras vezes na medida em que não manipula a audiência. A compaixão por Anne e Georges parte do próprio público, não do realizador. Não há lugar para uma narrativa manipulativa, sentimentalismo ou banda sonora lamecha, é apenas a verdade de Haneke, nua e crua.


3. Moonrise Kingdom (Wes Anderson) - Para quem não gosta do cinema de Wes Anderson, Moonrise Kingdom talvez seja apenas mais do mesmo, para quem, como eu, não se cansa do adorável escapismo dos seus filmes, é um dos melhores do ano. Desde Bottle Rocket que Anderson vem aperfeiçoando os seus filmes, e se em grande parte dos seus trabalhos anteriores as suas peculiares personagens pareciam deslocadas da realidade mas habitavam um mundo muito semelhante ao nosso, em Moonrise Kingdom o realizador puxou da caneta, do papel e da cabeça, e arquitectou um mundo à medida da excentricidade dos seus habitantes. O resultado é uma obra que nos engole do primeiro ao último minuto e na qual a única frustração é a de saber que o nosso mundo nunca será tão perfeito quanto o de Anderson.



4. The Queen of Versailles (Lauren Greenfield- Um documentário sobre o sonho Americano e o quão diferentes são as realidades do Zé Povinho e dos 1%. A família Siegel, uma das mais ricas dos EUA, passa num ápice do sonho ao pesadelo com a crise económica global de 2008. Perde dinheiro e vê-se obrigada a apertar o cinto. Durante mais de uma hora presenciamos o meltdown de David Siegel. A diferença entre o pesadelo de Siegel e o do comum mortal é que o seu pesadelo seria um sonho para qualquer um de nós. Para David Siegel o drama é o de passar de multimilionário a apenas milionário. Os perigos do capitalismo exacerbado, as extravagâncias fúteis da família em tempos de crise, a insignificância com que tratam os seus empregados e a forma como colocam bens materiais acima de vidas deixam qualquer um à beira de um ataque de nervos durante o documentário. Mas no final - e esse é o grande feito da realizadora Lauren Greenfield - não conseguimos deixar de olhar para David e Jackie Siegel com alguma compaixão e de ver neles apenas dois seres humanos que, como poderia acontecer com qualquer um de nós, se deixaram cegar pelo estilo de vida que podiam pagar.


5. Barbara (Christian Petzold) - A confirmação de Christian Petzold como um talento a ter em conta. Um filme em que pouco parece acontecer e ainda menos é pronunciado pelas personagens, mas que no final se condensa num dos melhores trabalhos do ano. O clima de suspeita, repressão e vigilância constante da era retratada pairam sobre o filme e a sua contenção em palavras e gestos provém exactamente daí. Depois há ainda Nina Hoss no papel principal, que dá espaço de manobra a um filme deste género. A subtileza com que interpreta Barbara faz com que as palavras que muitas actrizes teriam que pronunciar sejam transmitidas apenas por um olhar ou um gesto. Pena que o filme e a interpretação não tenham tido a atenção que mereciam.


6. César Deve Morrer (Paolo & Vittorio Taviani) - As obras de Shakespeare já deram origem a inúmeras adaptações cinematográficas, mas poucas tornam tão óbvio o poder e o génio das palavras do maior dramaturgo Inglês da história como esta. A encenação de Júlio César numa prisão de Roma, não por actores mas pelos próprios reclusos, deixa-nos mais absortos que nunca nas palavras de Shakespeare mesmo quando a vida e os crimes dos prisioneiros se intercalam na acção. Da mesma forma são essas palavras e a arte de as representar que libertam os reclusos da vida que levam. Talvez seja possível traçar paralelismos entre a obra Júlio César e as relações interpessoais dos reclusos daquela prisão, mas mais interessante que isso é ver o quão fácil é esquecer tudo o resto quando vemos uma obra de Shakespeare ser bem representada.


7. Tabu (Miguel Gomes) - Miguel Gomes foi uma das grandes sensações europeias do ano e a maior portuguesa. Tabu ultrapassou os 100 mil espectadores em França e marcou presença no topo de algumas das listas e dos festivais de cinema mais prestigiados do planeta. Apesar de manter a minha opinião de que Aquele Querido Mês de Agosto é o melhor trabalho da sua ainda curta carreira, Tabu merece inteiramente os aplausos.  Se por um lado o filme nos enche de melancolia pela perda de um cinema e de um passado recheado de glória e momentos memoráveis, por outro temos que exultar o possível nascimento de mais um grande cineasta português e o mais que merecido reconhecimento mundial da qualidade do nosso cinema que este nos trouxe. Pena que, tal como tinha acontecido em 2011 com Mistérios de Lisboa, o filme não tenha sido escolhido, inexplicavelmente (com o devido respeito ao João Canijo e ao seu Sangue do Meu Sangue), para representar Portugal nos prémios da academia Americana.


8. L'enfant d'en haut (Ursula Meier) - O primeiro de dois filmes nesta lista onde brilha Léa Seydoux. À semelhança de Barbara, L'enfant d'en haut é um filme que se solta a um ritmo compassado e faz as personagens crescer na audiência sem se impor, e só o nome de Ursula Meier nos créditos nos recorda que não acabámos de ver um filme dos irmãos Dardenne. As surpresas do filme não são tanto surpresas quanto certezas não faladas. O final é um dos melhores do ano e o compêndio perfeito do constante sobe e desce de Simon, da intermitente presença de Louise, e dos consequentes desencontros entre os dois. Kacey Mottet Klein é a revelação do ano e Léa Seydoux uma certeza.


9. Adeus, Minha Rainha (Benoît Jacquot) - Mais uma vez a estrela mais cintilante é Léa Seydoux, mesmo com a presença de Diane Kruger. Adeus, Minha Rainha é um filme percorrido a um ritmo de urgência, quase um filme de acção sem batalhas ou conflitos, apenas o prenúncio constante do final de uma era, marcado pela putrefacção e decadência que rodeiam e se acercam cada vez mais de Versalhes  Contado através dos relatos dos servos, todo esse prenúncio parece passar ao lado de uma Maria Antonieta fiel à História, alheada de todos os problemas que não sejam caprichos individuais, que não se apercebe do quão perto está o seu fim. 


10. Rebelle (Kim Nguyen) Está em último por alguma razão, e talvez nem estivesse nos 10 caso algo melhor tivesse surgido. Não surgiu e também não me envergonha ter Rebelle nesta lista. É uma história de amor e perda de inocência que toma lugar num cenário de terror. Mais do que isso é uma história verídica que acontece e se perpetua diariamente sem que muitos se apercebam, e nem que seja só pelo facto de Kim Nguyen ter conseguido informar o público dessa realidade, já vale a pena. Por outro lado a brandura com que a narrativa se desenrola faz com que fique a sensação de que talvez o impacto que uma história como esta devesse ter fosse bastante maior que o conseguido.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

A Morte de uma Nação


Em 1953, Federico Fellini era aplaudido entusiasticamente nos quatro quantos do mundo pelo seu neorrealista I Vitelloni (1953), um filme sobre um grupo de rapazes entre os 20 e 30 anos, ainda presos à casa e às mesadas dos pais, que passavam o muito tempo livre que tinham disponível a comportarem-se como crianças e a sonhar pelo dia em que finalmente conseguiriam sair de casa dos pais, concretizar os sonhos e ser efectivamente adultos. O filme era tão autobiográfico para Fellini (a ideia surgiu-lhe depois de ele próprio ter sido apelidado de “vitelloni” por uma idosa) como para os milhares de italianos que entraram na idade adulta durante os duros anos que se seguiram à Segunda Guerra. Mais de meio século volvido e o filme não poderia parecer mais fresco e, acautelando os anacronismos óbvios, contemporâneo. O título, I Vitelloni, conhecido no nosso país como Os Inúteis e no Brasil como Os Boas-Vidas, pode ser entendido como um comentário recheado de sarcasmo ao tipo de vida que os jovens no filme levam. E terá provavelmente sido com sarcasmo que Fellini o recebeu também da senhora. Na verdade, ainda que assim o pareça, os personagens de I Vitelloni não eram inúteis, e a vida boémia que levavam estava longe de ser boa, pelo menos a longo prazo. Eram sim vítimas do desemprego assolador da Europa pós-guerra e do estado de decadência social em que o país se encontrava. Sem emprego e sem perspectiva de futuro à altura das suas ambições, a motivação para fazer algo útil pela sociedade esvaia-se-lhes do pensamento e a inércia tomava conta deles. Passavam os dias como animais, tendo como única preocupação satisfazer os seus desejos físicos e carnais, arreliando a família e a vizinhança em part-time por mero capricho humorístico. Os sonhos continuavam a existir nas suas mentes, mas a ideia de que eram impossíveis era mais forte do que a coragem para os perseguir. Enquanto esperavam que a sua vida de sonho lhes caísse no colo, troçavam com aqueles que encontraram num trabalho banal a forma de ganhar a vida.


A certo ponto, um dos vitelloni, Fausto, é obrigado pela família a ir trabalhar como assistente de armazém numa loja de artigos religiosos. É difícil pensar num trabalho mais enfadonho e figurativo da aversão à autoridade, típica de um jovem, do que aquele. Fausto quase subconscientemente arranja imediatamente uma maneira de quebrar as correntes que o prendem a essa vida fastidiosa. Seduz a mulher do patrão e é despedido. Pelo menos temporariamente Fausto escolheu o seu futuro. Esse futuro passa por aproveitar os pequenos prazeres boémios que ainda consegue retirar da sua vida azarada, ao invés de se render a um emprego monótono que o prenderia de vez àquela terra onde os seus sonhos e aspirações acabariam por morrer. Quando I Vitelloni acaba e abandonamos a história, Fausto ainda se encontra na mesma situação, agora com um filho para sustentar mas com a mesma irreverência e irresponsabilidade, com a autoridade a tomar forma no cinto do seu pai, que lhe açoita as costas. Por sua vez, um outro vitelloni e amigo de Fausto, Moraldo, decide que chegou a altura de deixar tudo aquilo que sempre conheceu, abandona a vila e vai perseguir os seus sonhos na grande cidade de Roma. Se foi bem-sucedido ou não, nunca o saberemos.


Em Saturday Night and Sunday Morning (1960) de Karel Reisz, Arthur (Albert Finney) toma o mesmo rumo por um caminho distinto. Arthur também vive em casa dos pais em Manchester, arrelia a família e a vizinhança, tem amantes e namoradas, mas, ao contrário de Fausto, reserva grande parte dessas aventuras para os sábados à noite e os domingos de manhã. Durante os restantes dias Arthur resignou-se a trabalhar numa fábrica de metais. É um emprego cansativo e redundante, as peças metálicas que produz parecem à primeira vista inúteis e todo o processo é tão desprovido de inteligência que as centenas de empregados que partilham o edifício com Arthur se assemelham a animais treinados para fazer uma tarefa mecanicamente. Não sabemos se Arthur alguma vez teve sonhos ou ambições. Sabemos apenas que se rendeu ao sistema dominante que, de resto, parece compreender bem. Todos os dias fabrica exactamente o número mínimo de peças que lhe são requisitadas, e nem mais uma. Recusa fazer horas extras ou trabalhar a um ritmo mais elevado do que aquele que lhe é exigido. Sabe que caso o fizesse a sua única recompensa seria uma dor nas costas, o patrão ficaria com os lucros.
“No use working every minute God sends. I could finish in half the time if I went like a bull...but they'd only slash my wages, so they can get stuffed.”
Chegado o fim-de-semana e Arthur bebe para esquecer que terá de voltar à mesma rotina na segunda-feira seguinte. Enquanto o Fausto de Fellini é um sonhador, Arthur é um realista e sabe que dificilmente conseguirá alguma vez sair dessa rotina em que vive e terá que trabalhar para sempre naquela fábrica, tal como toda a sua vizinhança. Também inversamente a Fausto, a família de Arthur é pobre e precisa da ajuda do filho para sobreviver, o que justifica a sua determinação em ajudar. Mas ao contrário do que seria de esperar esta benevolência e capacidade de sacrifício por parte de Arthur não o tornam numa personagem mais submissa a autoridade que Fausto. Ele nega ser igual a todos os outros “pobres mendigos” que “foram treinados a obedecer antes da guerra e nunca recuperaram”, e a sua forma de mostrar a sua individualidade é em tudo semelhante à de Fausto. Mostra-se contra símbolos de autoridade, sejam eles a igreja (quer negando a vontade de alguma vez casar, quer corrompendo o casamento de um dos seus colegas), a vizinha que condena o seu estilo de vida ou a polícia. Cada acção que demonstra a sua dissidência com o “normal” é motivo de festejo. E mesmo quando chega o dia em que, tal como o cinto do pai de Fausto sobre as suas costas, a autoridade se impõe sobre si e é espancado por dois militares, Arthur continua a afirmar querer ser diferente nem que isso resulte na alienação de todos aqueles de que gosta. O futuro de Arthur será aquele, preso a um trabalho rotineiro, mas livre na sua mente.



The Last Picture Show (1971) de Peter Bogdanovic também é adaptado de uma história semiautobiográfica do livro de Larry McMurtry. Segue um ano da vida de Sonny e Duane, dois amigos que se preparam para entrar na idade adulta e à semelhança de Fausto se divertem em brincadeiras que adiam a chegada da responsabilidade adulta. Mas, mais importante que isso, o filme retrata a morte lenta da pequena cidade de Anarene, Texas, parada no tempo e progressivamente abandonada pelos filhos da terra. Sam “the Lion” (sublime Ben Johnson) é talvez a única pessoa bem-sucedida na cidade. É dono de um café, um salão de jogos e a única sala de cinema na cidade, o Cinema Royal. Mas o seu sucesso não se resume a isso. Sam não é um homem rico, os lucros dos seus negócios aparentam ser poucos e é a relação de amizade com a vizinhança e os seus empregados que fez com que tivesse ganho o respeito de todos. É também provavelmente a única personagem no filme que gosta genuinamente daquele lugar e consegue encontrar beleza onde os outros veem decadência. Ele sabe que a cidade está a morrer, mas as memórias dão-lhe força para continuar a lutar por ela e a abrandar esse declínio enquanto lhe for possível.


A restante população é composta por jovens que anseiam fugir para as grandes cidades e adultos que ressentem nunca o terem feito. Um dia Sonny e Duane decidem ir ao México e voltar na mesma noite e quando regressam descobrem que Sam morreu. Com a morte de Sam deixa de haver razão para a cidade existir. Poucos meses depois, o velho Cinema Royal, que por tantos anos os tinha alheado da insipidez de tudo o que os rodeava, revela-se um negócio pouco rentável e é encerrado, e a última sessão de cinema é o evento que simboliza a morte cultural da cidade. Sem a paixão de Sam pela cidade, não há quem esteja disposto a perder dinheiro para a preservar e isso representa uma nova etapa na vida de Sonny, que herda o salão de jogos e enfrenta agora definitivamente o desafio da vida adulta. Cabe-lhe decidir se fica em Anarene e continua o legado de Sam, correndo ou risco de se tornar tão miserável quanto a restante população, ou se abandona a cidade como todos os seus amigos, incluindo Duane, que se alista para combater na Coreia. No final Sonny decide ficar e é difícil para mim, enquanto espectador, não permanecer céptico em relação ao seu futuro. Sonny não sabe o segredo para ser feliz naquela terra, esse morreu também com Sam. E sem esse segredo será apenas uma questão de tempo até que o infortúnio que paira sobre a cidade se abata também sobre ele.


Escolhi estes três filmes para abrir este blog porque considero que resumem um pouco do que sou e tenho sido nos anos mais recentes. Enquanto alguém ambicioso que sempre sonhou alto, quiçá demais, e subitamente se descobre na idade decisiva entre os 20 e os 30, desempregado e sem perspectiva de futuro, é impossível olhar para estes filmes com outros olhos que não os do pessimismo. A autenticidade que o neorrealismo e kitchen sink realism concedem aos dois primeiros filmes nem era realmente necessária para me fazer rever no retratado. Não é difícil ver um pouco de mim na letargia do Fausto que prefere continuar a sonhar em vez de perseguir os sonhos apenas para os ver estilhaçados pelas limitações de um país transfigurado pelos maus caminhos em que decidiu enveredar anos antes, do Arthur que se vê obrigado a aceitar a precariedade de um trabalho e a inevitabilidade de um futuro obscuro, ou ainda do Moraldo e do Duane que estão dispostos a abandonar tudo e todos que conhecem para mudar de vida. Mas acima de tudo não é difícil ver a cidade de Anarene como sinédoque de Portugal e de um futuro próximo do país. Um lugar habitado por cidadãos revoltados, descrentes e desconfiados de quem lhes impõe regras, dividido entre aqueles que se resignam a sacrificar a sua felicidade e aqueles que anseiam fugir. Por enquanto ainda é possível ouvir as palavras do monólogo de Sam e olhar para Portugal com nostalgia, observar a sua beleza e compreender porque é tão difícil abandonar este barco que se afunda. Mas na rota que seguimos são cada vez menos os nossos Sams, e os nossos cinemas Royal. A nossa cultura e a nossa tradição passam cada vez mais para as mãos de quem não vê essa beleza e procura apenas o lucro rápido. No dia em que o nosso último Sam morrer será o dia em que não haverá Portugueses, apenas habitantes de Portugal.


A cidade do Texas que no filme tem o nome fictício de Anarene chama-se na realidade Archer City e o declínio em que se encontrava no filme e no livro era verídico. Uma rápida pesquisa no Google revela que o Cinema Royal existe mesmo e que na realidade foi consumido por um incêndio anos antes de Bogdanovich lá filmar The Last Picture Show. Para as filmagens, a equipa de produção reconstruiu apenas a fachada do velho edifício, mas no interior continuaram apenas as ruinas do incêndio que muitos diziam estar repletas de cobras. No grande ecrã reina a ilusão e por isso uma fachada é tudo o que é preciso. Mas para uma população isso não chega, e talvez por isso um grupo de moradores de Archer City decidiu investir na reconstrução completa da sala de cinema em 1996. Poderia dizer-se que a ideia surgiu de um Sam the Lion. A família de Abby Abernathy vive em Archer City há cinco gerações e foi isso que nunca o deixou abandonar a cidade. Comprou o velho edifício e procurou investidores, sem sucesso, em cidades com melhores economias. O problema continuou sem solução até Abby ter decidido que quem melhor poderia perceber as suas razões para renovar o cinema seriam os outros filhos da terra. Grande parte da população da cidade, com cerca de apenas 1900 habitantes, contribuiu e o cinema reabriu plenamente funcional no ano de 2000. Num artigo do Kokomo Tribune, aquando da inauguração do novo edifício, Karla Powell, uma das residentes da cidade que contribuiu, explicava as razões que a levaram a fazê-lo.
“Small towns, if they don’t have something to bring people in, then we’re all over.”
Não sei se é verosímil um pequeno país desenvolvido receber lições de uma pequena cidade algures no Texas, mas não me parece errado olhar para acções de pessoas como Abby Abernathy e Karla Powell como exemplos de que, se não olharmos pelo que é nosso, corremos o risco de nos tornar num Portugal com nada mais que uma fachada bonita.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Sobre o que é assinado e sua origem

"Wamba the Fool" em honra do verdadeiro herói de Ivanhoe (leitura recente), com créditos partilhados com Shakespeare.



"The fool doth think he is wise, but the wise man knows himself to be a fool."

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Prólogo


Mais que uma singelo aceno ao filme-mor de Cassavetes père, com ornamentação de Bergman por razões meramente estéticas, Um Homem Sob Influência porque é essa a condição a que me sujeito enquanto escravo cativo da cultura e do entretenimento. E se durante muito tempo foi a frase de Homer J. Simpson que me deu força para estar quieto, ressurgiu agora a vontade de escrever e partilhar com quem as quiser ler, as sequelas dessa influência na minha pessoa. Depois de várias tentativas falhadas em manter um blog vivo, ou pelo menos em boa saúde, são as palavras de outro Homer (Homero, em bom Português) que me dão esperança nesta nova aventura. Dizia ele que existe um tempo para as palavras e um tempo para dormir. Farei dessas palavras o meu hino, e não condenarei o sucesso de este blog à frequência com que o actualizo, na esperança de reaver o gosto pela escrita. Serve isto então de aviso a qualquer visitante que neste barco navega-se ao sabor do vento e das ondas, e mesmo que sejam poucas as vezes em que se avistará terra, mantenho firme a esperança de o conseguir levar a bom porto. Caso a vontade do caro leitor seja ficar, seja bem-vindo a bordo!

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