Em 1953, Federico Fellini era aplaudido entusiasticamente nos quatro quantos do mundo pelo seu neorrealista I Vitelloni (1953), um filme sobre um grupo de rapazes entre os 20 e 30 anos, ainda presos à casa e às mesadas dos pais, que passavam o muito tempo livre que tinham disponível a comportarem-se como crianças e a sonhar pelo dia em que finalmente conseguiriam sair de casa dos pais, concretizar os sonhos e ser efectivamente adultos. O filme era tão autobiográfico para Fellini (a ideia surgiu-lhe depois de ele próprio ter sido apelidado de “vitelloni” por uma idosa) como para os milhares de italianos que entraram na idade adulta durante os duros anos que se seguiram à Segunda Guerra. Mais de meio século volvido e o filme não poderia parecer mais fresco e, acautelando os anacronismos óbvios, contemporâneo. O título, I Vitelloni, conhecido no nosso país como Os Inúteis e no Brasil como Os Boas-Vidas, pode ser entendido como um comentário recheado de sarcasmo ao tipo de vida que os jovens no filme levam. E terá provavelmente sido com sarcasmo que Fellini o recebeu também da senhora. Na verdade, ainda que assim o pareça, os personagens de I Vitelloni não eram inúteis, e a vida boémia que levavam estava longe de ser boa, pelo menos a longo prazo. Eram sim vítimas do desemprego assolador da Europa pós-guerra e do estado de decadência social em que o país se encontrava. Sem emprego e sem perspectiva de futuro à altura das suas ambições, a motivação para fazer algo útil pela sociedade esvaia-se-lhes do pensamento e a inércia tomava conta deles. Passavam os dias como animais, tendo como única preocupação satisfazer os seus desejos físicos e carnais, arreliando a família e a vizinhança em part-time por mero capricho humorístico. Os sonhos continuavam a existir nas suas mentes, mas a ideia de que eram impossíveis era mais forte do que a coragem para os perseguir. Enquanto esperavam que a sua vida de sonho lhes caísse no colo, troçavam com aqueles que encontraram num trabalho banal a forma de ganhar a vida.
A certo ponto, um dos vitelloni, Fausto, é obrigado pela família a ir trabalhar como assistente de armazém numa loja de artigos religiosos. É difícil pensar num trabalho mais enfadonho e figurativo da aversão à autoridade, típica de um jovem, do que aquele. Fausto quase subconscientemente arranja imediatamente uma maneira de quebrar as correntes que o prendem a essa vida fastidiosa. Seduz a mulher do patrão e é despedido. Pelo menos temporariamente Fausto escolheu o seu futuro. Esse futuro passa por aproveitar os pequenos prazeres boémios que ainda consegue retirar da sua vida azarada, ao invés de se render a um emprego monótono que o prenderia de vez àquela terra onde os seus sonhos e aspirações acabariam por morrer. Quando I Vitelloni acaba e abandonamos a história, Fausto ainda se encontra na mesma situação, agora com um filho para sustentar mas com a mesma irreverência e irresponsabilidade, com a autoridade a tomar forma no cinto do seu pai, que lhe açoita as costas. Por sua vez, um outro vitelloni e amigo de Fausto, Moraldo, decide que chegou a altura de deixar tudo aquilo que sempre conheceu, abandona a vila e vai perseguir os seus sonhos na grande cidade de Roma. Se foi bem-sucedido ou não, nunca o saberemos.
Em Saturday Night and Sunday Morning (1960) de Karel Reisz, Arthur (Albert Finney) toma o mesmo rumo por um caminho distinto. Arthur também vive em casa dos pais em Manchester, arrelia a família e a vizinhança, tem amantes e namoradas, mas, ao contrário de Fausto, reserva grande parte dessas aventuras para os sábados à noite e os domingos de manhã. Durante os restantes dias Arthur resignou-se a trabalhar numa fábrica de metais. É um emprego cansativo e redundante, as peças metálicas que produz parecem à primeira vista inúteis e todo o processo é tão desprovido de inteligência que as centenas de empregados que partilham o edifício com Arthur se assemelham a animais treinados para fazer uma tarefa mecanicamente. Não sabemos se Arthur alguma vez teve sonhos ou ambições. Sabemos apenas que se rendeu ao sistema dominante que, de resto, parece compreender bem. Todos os dias fabrica exactamente o número mínimo de peças que lhe são requisitadas, e nem mais uma. Recusa fazer horas extras ou trabalhar a um ritmo mais elevado do que aquele que lhe é exigido. Sabe que caso o fizesse a sua única recompensa seria uma dor nas costas, o patrão ficaria com os lucros.
“No use working every minute God sends. I could finish in half the time if I went like a bull...but they'd only slash my wages, so they can get stuffed.”
Chegado o fim-de-semana e Arthur bebe para esquecer que terá
de voltar à mesma rotina na segunda-feira seguinte. Enquanto o Fausto de
Fellini é um sonhador, Arthur é um realista e sabe que dificilmente conseguirá
alguma vez sair dessa rotina em que vive e terá que trabalhar para sempre
naquela fábrica, tal como toda a sua vizinhança. Também inversamente a Fausto, a família de Arthur é pobre e precisa da ajuda do filho para sobreviver, o que justifica a sua determinação em ajudar. Mas ao contrário do que seria de esperar esta benevolência e capacidade de sacrifício por parte de Arthur não o tornam numa personagem mais submissa a autoridade que Fausto. Ele nega ser igual a todos os outros “pobres mendigos” que “foram treinados a obedecer antes da guerra e nunca recuperaram”, e a sua forma de mostrar a sua individualidade é em tudo semelhante à de Fausto. Mostra-se contra símbolos de autoridade, sejam eles a igreja (quer negando a vontade de alguma vez casar, quer corrompendo o casamento de um dos seus colegas), a vizinha que condena o seu estilo de vida ou a polícia. Cada acção que demonstra a sua dissidência com o “normal” é motivo de festejo. E mesmo quando chega o dia em que, tal como o cinto do pai de Fausto sobre as suas costas, a autoridade se impõe sobre si e é espancado por dois militares, Arthur continua a afirmar querer ser diferente nem que isso resulte na alienação de todos aqueles de que gosta. O futuro de Arthur será aquele, preso a um trabalho rotineiro, mas livre na sua mente.

The Last Picture Show (1971) de Peter Bogdanovic também é adaptado de uma história semiautobiográfica do livro de Larry McMurtry. Segue um ano da vida de Sonny e Duane, dois amigos que se preparam para entrar na idade adulta e à semelhança de Fausto se divertem em brincadeiras que adiam a chegada da responsabilidade adulta. Mas, mais importante que isso, o filme retrata a morte lenta da pequena cidade de Anarene, Texas, parada no tempo e progressivamente abandonada pelos filhos da terra. Sam “the Lion” (sublime Ben Johnson) é talvez a única pessoa bem-sucedida na cidade. É dono de um café, um salão de jogos e a única sala de cinema na cidade, o Cinema Royal. Mas o seu sucesso não se resume a isso. Sam não é um homem rico, os lucros dos seus negócios aparentam ser poucos e é a relação de amizade com a vizinhança e os seus empregados que fez com que tivesse ganho o respeito de todos. É também provavelmente a única personagem no filme que gosta genuinamente daquele lugar e consegue encontrar beleza onde os outros veem decadência. Ele sabe que a cidade está a morrer, mas as memórias dão-lhe força para continuar a lutar por ela e a abrandar esse declínio enquanto lhe for possível.
Escolhi estes três filmes para abrir este blog porque considero que resumem um pouco do que sou e tenho sido nos anos mais recentes. Enquanto alguém ambicioso que sempre sonhou alto, quiçá demais, e subitamente se descobre na idade decisiva entre os 20 e os 30, desempregado e sem perspectiva de futuro, é impossível olhar para estes filmes com outros olhos que não os do pessimismo. A autenticidade que o neorrealismo e kitchen sink realism concedem aos dois primeiros filmes nem era realmente necessária para me fazer rever no retratado. Não é difícil ver um pouco de mim na letargia do Fausto que prefere continuar a sonhar em vez de perseguir os sonhos apenas para os ver estilhaçados pelas limitações de um país transfigurado pelos maus caminhos em que decidiu enveredar anos antes, do Arthur que se vê obrigado a aceitar a precariedade de um trabalho e a inevitabilidade de um futuro obscuro, ou ainda do Moraldo e do Duane que estão dispostos a abandonar tudo e todos que conhecem para mudar de vida. Mas acima de tudo não é difícil ver a cidade de Anarene como sinédoque de Portugal e de um futuro próximo do país. Um lugar habitado por cidadãos revoltados, descrentes e desconfiados de quem lhes impõe regras, dividido entre aqueles que se resignam a sacrificar a sua felicidade e aqueles que anseiam fugir. Por enquanto ainda é possível ouvir as palavras do monólogo de Sam e olhar para Portugal com nostalgia, observar a sua beleza e compreender porque é tão difícil abandonar este barco que se afunda. Mas na rota que seguimos são cada vez menos os nossos Sams, e os nossos cinemas Royal. A nossa cultura e a nossa tradição passam cada vez mais para as mãos de quem não vê essa beleza e procura apenas o lucro rápido. No dia em que o nosso último Sam morrer será o dia em que não haverá Portugueses, apenas habitantes de Portugal.

A cidade do Texas que no filme tem o nome fictício de Anarene chama-se na realidade Archer City e o declínio em que se encontrava no filme e no livro era verídico. Uma rápida pesquisa no Google revela que o Cinema Royal existe mesmo e que na realidade foi consumido por um incêndio anos antes de Bogdanovich lá filmar The Last Picture Show. Para as filmagens, a equipa de produção reconstruiu apenas a fachada do velho edifício, mas no interior continuaram apenas as ruinas do incêndio que muitos diziam estar repletas de cobras. No grande ecrã reina a ilusão e por isso uma fachada é tudo o que é preciso. Mas para uma população isso não chega, e talvez por isso um grupo de moradores de Archer City decidiu investir na reconstrução completa da sala de cinema em 1996. Poderia dizer-se que a ideia surgiu de um Sam the Lion. A família de Abby Abernathy vive em Archer City há cinco gerações e foi isso que nunca o deixou abandonar a cidade. Comprou o velho edifício e procurou investidores, sem sucesso, em cidades com melhores economias. O problema continuou sem solução até Abby ter decidido que quem melhor poderia perceber as suas razões para renovar o cinema seriam os outros filhos da terra. Grande parte da população da cidade, com cerca de apenas 1900 habitantes, contribuiu e o cinema reabriu plenamente funcional no ano de 2000. Num artigo do Kokomo Tribune, aquando da inauguração do novo edifício, Karla Powell, uma das residentes da cidade que contribuiu, explicava as razões que a levaram a fazê-lo.
Não sei se é verosímil um pequeno país desenvolvido receber lições de uma pequena cidade algures no Texas, mas não me parece errado olhar para acções de pessoas como Abby Abernathy e Karla Powell como exemplos de que, se não olharmos pelo que é nosso, corremos o risco de nos tornar num Portugal com nada mais que uma fachada bonita.“Small towns, if they don’t have something to bring people in, then we’re all over.”




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